No final uma tempestade

Estávamos chegando de uma longa viagem a bordo do veleiro Domani, um oceânico de 40 pés, havíamos navegado pela costa de São Paulo e Rio por cerca de 15 dias com ventos tranquilos e mar calmo no caminho de ida e volta, saindo de Ilha Bela rumo à Paraty chegando em Ilha Bela novamente. Faltavam por volta de 10 milhas náuticas (18 km) para entrarmos no canal de São Sebastião, estávamos com mar alto mas nada assustador, de repente o vento começou a aumentar e a tripulação toda, eu, meu tio e três primos, ficamos empolgadíssimos com a velejada, tanto que nem notamos muito as ondas que se mostravam cada vez maiores. Era noite já, aproximadamente oito horas, e não havia céu claro, ou seja, um breu e o casco de mais de dez toneladas abrindo ondas com uma potência impressionante e um estrondo de trovão. No meio dessa empolgação toda o vento que entrava no través de bombordo (esquerda), portanto do oceano para a terra já que íamos no sentido sul, se transformou em um potente desafiador e travou a vela grande com uma força que três homens não conseguiram soltar a escota, que chegou a quebrar o mordedor. Tamanha força adernou o enorme veleiro em um ângulo que o leme perdeu a eficiência por tocar pouco a água. Essa mesma força e ângulo impedia que o veleiro seguisse em frente, ou seja estávamos estancados a mercê das ondas e não bastando, a genoa que conseguíramos enrolar, tinha ficado com uma barriga e foi o suficiente para inflar uma parte de vela, correndo o risco de rasgar. Era uma situação que eu nunca havia enfrentado, dentro de um veleiro, sem nenhum visual da costa, tempo fechado e andando nas paredes do barco. Ironicamente estávamos entre uma e duas horas de chegar no abrigo do canal. Apesar da situação extremamente perigosa, não havia nenhum desespero a bordo, correria sim, mas não desespero, tudo era feito de forma pensada e sensata por todos os tripulantes, como se tivesse sido combinado antes. Depois de 10 ou 15 minutos de luta eu e meu primo conseguimos risar a vela (procedimento padrão em casos de tempestade, consiste em diminuir a área da vela baixando-a até uma altura que a vela tem uns “furinhos” para passar um cabo de amarra) e o veleiro voltou ao nosso comando, porém ainda estávamos bem adernados e no meio de uma tempestade, a carta náutica indicava que um abrigo na costa norte de Ilha Bela não estava longe e rumamos para lá, o Saco do Poço. Conforme nos aproximamos da ilha, entramos na sombra das montanhas e o vento ficou mais calmo e pudemos relaxar. Foi uma aventura incrível e uma grande diversão que ficou na memória, não pelo perigo que passamos mas pelo sucesso que tivemos. Creio que tudo que se faz depende de estarmos conectados, nosso triunfo não está relacionado a sorte, mas sim à profunda comunicação que tínhamos com a situação e o meio. Esta conexão nos possibilitou participar do meio, fazer parte da situação e não lutar contra ela, porque se não estivéssemos conectados com o meio, provavelmente não estaríamos conectados entre nós e uma catástrofe seria inevitável.

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