Limpando os mares

csm_22062016_press_release_16015be846Um jovem estudante de engenharia holandês surpreendeu o mundo com um projeto que promete remover metade do lixo plástico dos oceanos em 10 anos.

Fundador da The Ocean Cleanup aos 17 anos, Boyan Slat apresentou um sistema funcional e possível no Fórum Digital de Seul em maio de 2015, para ser executado um primeiro protótipo no segundo semestre de 2016, no mar do norte a 23 km da costa holandesa, local escolhido pela localização em águas holandesas e pelo comportamento extremo do mar, para avaliar a viabilidade de uso na mancha de lixo do Pacífico que tem condições semelhantes.

A fase de testes terá duração de um ano e conta com apoio do governo da Holanda e a empresa de dragagens e serviços marinhos Royal Boskalis Westminster N.V. e a expectativa é a criação de modelos de proporções bem maiores para serem usados nas grandes manchas oceânicas de lixo.

O funcionamento do sistema é a grande inovação, ele usa o movimento das correntes marítimas com barreiras flutuantes ligadas à torres de recolhimento, é um sistema passivo e praticamente sem consumo de energia não renovável, que ficaria por conta apenas do consumo dos navios ao recolhimento do lixo acumulado, que será destinado à reciclagem.

Vamos torcer, acompanhar e colaborar.

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Energia do mar

Usina Hidrelétrica Sayano-Shushenskaya na Russia

Usina Hidrelétrica Sayano-Shushenskaya na Russia

Usinas de energia movidas pela passagem de água por turbinas, que ao girarem transformam a energia mecânica da água em queda em energia elétrica para nossos lares. Fantástico, sem combustão como nas usinas à carvão, gás ou outro tipo de combustível, ela não polui, não precisa ser alimentada, é inesgotável, é simplesmente incrível.

Mas o que é preciso para obter essa energia? Primeiro um rio, de preferência um que corra por vales profundos, em seguida constroi-se uma muralha imensa, mais alta que muitos predios para ter uma boa diferença de altura para acumular energia potencial e mais espessa que quarteirões inteiros de um bairro de São Paulo para ter resistência física de segurar toda essa energia potencial. Dentro desse enorme muro de concreto colocamos os mecanismos e as turbinas para obtenção de energia elétrica, ligados aos canais de água que irão descer por ali para girar toda essa máquina e fazer eletricidade.

Turbinas da usina Hidrelétrica Sayano-Shushenskaya na Russia

Turbinas da usina Hidrelétrica Sayano-Shushenskaya na Russia

Que obra maravilhosa da engenharia, grandiosa e imponente, mas vamos pensar isso em outra perspectiva. A construção dessas usinas também causam um impacto ambiental avassalador, ao criar esses enormes muros de concreto, a água que ali fica represada vai cobrir áreas de terra, muitas vezes fértil ou regiões onde moram pessoas, Vilas e cidades já foram tomadas por represas no passado e mais uma vez isso vai acontecer no Brasil em Belo Monte.

Mas alguém já pensou nisso, temos energia das águas desde que a terra existe, as formas de utilizá-la ainda estão sendo descobertas, de fato alguém pensou em um sistema tão bom e não poluente quanto uma represa com sua usina hidroelétrica, mas sua fonte não são rios e sim o mar.

Ilustração do parque de ondas de Aguçadoura

Ilustração do parque de ondas de Aguçadoura

O primeiro país produtor de energia desse tipo foi Portugal em 2008, no parque de ondas de Aguçadoura, a 3 milhas náuticas da cidade de Póvoa,  foi a primeira fazenda de energia elétrica pelas ondas. Um equipamento semelhante à uma serpente gigantesca feita pela empresa inglesa Pelamis, flutua no oceano atada à um ponto fixo no fundo do mar por cabos. A energia mecânica gerada pelo movimento das articulações do corpo da “serpente” é transformado em energia elétrica e é transferido para acumuladores em terra através de cabos elétricos.

oyster wave power

Oyster Wave Power

Além desse sistema, no mesmo conceito temos o Oyster Wave Power Device da Aqualarine Power, instalado nas Ilhas Orkney no norte da Escócia (ainda em fase de testes), que diferentemente do Pelamis, obtem sua energia pelo movimento das ondas em pequena profundidade, pois o equipamento é fixado no solo submarino.

Há a opção de usina em terra, ainda em desenvolvimento pela Voith em que a turbina fica na encosta, onde as ondas estouram nas pedras e um duto conduz a energia das ondas para as turbinas geradoras de enerdia elétrica. Neste mesmo método existe também o Ocean Power.

Tidal reef design by Evans Engineering

Tidal reef design by Evans Engineering

Além da energia das ondas temos ainda a energia das marés, mais constante do que as ondas, que pode ser usada para obter energia por barragens.

Neste sistema a água do mar gira as turbinas enquanto força a passagem pelo canal por baixo da barragem e o fará novamente quando a maré estiver esvaziando. Já existe uma usina em funcionamento em St Malo, no sul da França, que abastece uma cidade com 223000 habitantes.

Existem usinas por maré sem barragens também, como a Davidson-Hill Venturi Turbine, a Turbina Maremotriz da Open Hydro, a Swan Turbines, e muitos outros que estão desenvolvendo e tecnologia de energia das marés e ondas.

Depois de conhecer um pouco sobre isso soa tão ultrapassado e sem propósito represar um rio que eu me pergunto se precisamos construir mais represas para termos usinas hidroelétricas se já temos o mar (hidro) e a tecnologia para eletricidade.

Volta ao Mundo com energia solar

MS Tûranor PlanetSolar

MS Tûranor PlanetSolar

Este mês o MS Tûranor PlanetSolar concluiu a primeira volta ao mundo navegando locomovido apenas por energia solar em 584 dias, 23 horas e 31 minutos, chegando  em Mônaco no dia 04 de maio de 2012 de onde partiram no dia 27 de setembro de 2010.

A embarcação catamarã de aparência extravagante tem 537 m2 de painéis fotovoltáicos que alimentam seis blocos de baterias de lítium-ion, usa motores elétricos alimentados pelas baterias e pesa 95 toneladas.

Singradura PlanetSolarPelos 59882km que percorreu, fez diversas paradas pelo mundo: Miami, Cancun, Cartagena, Panamá, Galápagos, Ilhas Marquesas, Papete, Tonga, Noumea, Brisbane, Cairns, Manila, Hong Kong, Singapura, Sri Lanka, Mumbai, Abu Dhabi, Doha e Mônaco. Em cada parada foram feitas palestras sobre a importância da energia solar e o barco pôde ser visitado por escolas de cada região.

Um sopro de vida para o planeta, estamos precisando.

 

TÛRANOR PlanetSolar

Tûranor Planetsolar em Cancun

Tûranor Planetsolar em Cancun

O maior navio movido a energia solar no mundo é um catamarã coberto por painéis fotovoltaicos, sendo alguns deles móveis, construído por Knierim Yacht Club, em Kiel, na Alemanha em 14 meses, medindo 31 metros de comprimento que se estende até 35 com o painéis abertos, 6,1 metros de altura, 95 toneladas de pêso e 15 metros de largura que chega a 23 metros com painéis estendidos.

planetsolar com paineis abertos

Tûranor planetsolar com os painéis abertos

O multicascos será a casa de seis marinheiros durante a tentativa de volta ao mundo, e pode acomodar até quarenta pessoas, que navegam apenas com a energia encontrada na luz, absorvida por 537 m2 de módulos fotovoltaicos (painéis solares) ao sol.

Em 2011, a primeira viagem ao redor do mundo alimentada por energia solar será realizada com escalas ao longo do Equador, onde a quantidade máxima de luz solar está disponível. A tripulação do PlanetSolar cruzará o Oceano Atlântico, o Canal do Panamá, o Oceano Pacífico, Oceano Índico e, finalmente, o Canal de Suez, antes de retornar para o Mediterrâneo completando uma volta completa ao planeta.

Sala de comando

As escalas serão organizadas em cidades portuárias de grande porte (Miami, Cancun, Brisbane, Hong Kong, Xangai, Singapura, Abu Dhabi, etc), para grande visibilidade e vai ser usado como uma plataforma promocional para as energias renováveis​​, especialmente solar. O projeto pretende mostrar que não devemos desperdiçar os recursos naturais que temos à nossa disposição, demonstrar o potencial das energias renováveis e mostrar que já temos a tecnologia necessária para a sustentabilidade.

Hoje o Barco está em Vüng Táo, no sul do Vietnan e é possível acompanhar sua posição no globo pelo site www.planetsolar.org, onde também há dados mais detalhados sobre o incrível projeto, acompanhem essa tripulação e sua bonita missão.

O Maltese Falcon (Falcão Maltês)

Falcão Maltês

Falcão Maltês

Duas lanchas de 10 metros, 4 veleiros laser, jetski, entre outros brinquedos aquáticos, tudo isso a bordo de um incrível veleiro construído com muita tecnologia e muito luxo em três decks, chegando a 88 metros de comprimento, três mastros com 58 metros de altura e 2400 metros quadrados de vela.

Números no mínimo impressionantes que combinam em grandeza ao valor que se cobra para o charter, sim ele está disponível para aluguel ao preço de 600 mil dólares por semana!

É caro mas é claro que o preço tem suas razões, o enorme veleiro tem todas as acomodações em camas queen size, sendo que as suítes VIP tem banheiros dela e dele, todo interior é climatizado e possui internet por satélite com wireless no barco todo.

painel de controle Falcão Maltês

Painel de controle do Falcão Maltês

Sua ponte de comando mais parece a de uma nave estelar Enterprise do filme Star Trek, todas as funções, incluindo as velas, são contorladas por computador.

Os mastros são rotativos e autoportantes, ou seja não precisam de cabos de aço para sua fixação e ao redor da base do matro, na estrutura de sustentação tem pisos de vidro nos três pavimentos, levando luz natural aos decks inferiores pelo centro do veleiro, além das janelas laterais. Também ao redor do piso de vidro e do mastro estão as escadas que naturalmente são circulares, porém bem espaçosas.

Todo o barco pode ser comandado por apenas uma pessoa devido à toda sua tecnologia aplicada, até mesmo as velas podem ser recolhidas diretamente da ponte de comando, tudo é eletrônico e contectado à um computador central controlado pela ponte.

O Maltese Falcon é o maior veleiro de charter do mundo e já atingiu a incrível marca de velajar a 19,5 nós (36km/h), muito rápido para um veleiro de cruzeiro, essa velocidade é rara mesmo para veleiros de competição. Isso se deve ao revolucionário sistema de velas DynaRig, que deve sua origem ao trabalho feito na década de sessenta por Wilhelm Prölss, que consiste efetivamente em plataformas quadradas retráteis que se unem formando uma única vela , o mastro é autônomo e as retrancas estão ligadas rigidamente ao mastro, neste caso cada retranca tem até seis metros com curvatura de 12%.

Uma máquina incrível com novas tecnologias que talvez vejamos por ai em breve em pequenos veleiro de cruzeiro.

Plastiki

Um catamarã construído em 2010 por David de Rothschild com lixo e material reciclado para atravessar o oceano Pacífico, saindo de São Francisco no dia 20 de março e chegando em Sidney no dia 26 de julho de 2010, depois de percrrer a distância de 8395 milhas náuticas timoneado por Jo Royle.

Seu casco, pasmem, é composto por 12.500 garrafas pet, toda energia usada no barco vem de fontes renováveis, ou adiquirida por painéis solares, ou por turbinas alojadas nos cascos, ou por bicicletas fixadas sobre dínamos, o barco não tem motor à combustão, uma maneira de chamar a atenção para o descarte de lixo nos mares.

A maior inspiração do projeto foi o combate ao que se chama de plastic soup, um cinturão de plasticos descartados no mar que flutuam por anos e acabou se tornando maior que os EUA. A equipe era formada por 10 pessoas sendo apenas seis a bordo, revesando com os quatro outros da equipe, entre fotógrafos, navegadores e mergulhadores levaram o veleiro por seu trajeto através do Pacífico.

Algums números interessantes do projeto:

120 mil horas de trabalho;

7807 novos fans no facebook;

10.400 fotos;

879 tweets do barco;

E tem muito mais no site.

O feito foi registrado pelo NatGeo e no final da viagem o Plaskiti foi doado ao Museu Marítimo Nacional de Sidney, em Darling Harbor.

L’hydroptère

Um veleiro diferente, projetado em três cascos sendo um principal e mais dois flutuadores, que se apoiam em hidrofólios quando está em velocidade,  ficando acima da água voando baixo, assim é o L’hydroptère.

Projetado pelo francês Alain Thébault para quebrar recordes, começou sua história quebrando dois recordes de velocidade retificados pelo World Sailing Speed Record Council em abril de 2007.

O detentor do recorde depois disso foi o francês Alexandre Caizergues que chegou a 50,57 nós (93,65 km/h) com um kite surf. Seu feito durou até 4 de setembro de 2009, quando o L’hydroptère manteve 51,36 nós (95,12km/h) em 500 metros percorridos, com pico de 55,5 nós (102,8 km/h) e um vento de 28 nós, batendo o recorde do kitesurfista.

Com 18,28 metros de comprimento no casco principal, 6,5 metros cada flutuador, 24 de largura total, 6,5 toneladas, área vélica de 195 m2, sendo 135 m2 a vela mestra e 60 m2 a genoa. Seus  hydrofólios de 3 mteros  mantêm os cascos do barco a 2 metros acima da água proporcionando mínimo atrito e levando praticamente a zero o impacto das ondas.

O segredo da alta velocidade é o atrito muito baixo entre o barco e a água, possibilitando que a velocidade do veleiro ultrapasse a do vento.

A quebra do recorde foi comandada pelo skypper que projetou o brinquedo Alain Thébault  e a empresa produziu também o HydroptéreCH, projetodo para travessias e lançado no final de 2010, foi na verdade um laboratório para criar o modelo maior Hydroptère maxi, que irá ao mar em 2014 para dar a volta ao mundo em apenas 40 dias.

O Maxi vai medir 30 metros de comprimento por 32 de largura total, nos moldes aproximados do L’hydroptère com três cascos e hidrofólios.

assista o vídeo do recorde

O MAR É UM LUGAR MÁGICO

  O mar tem uma mágica que pode ser sentida mesmo por quem não tem intimidade com ele, basta estar próximo que podemos sentir sua força de alguma forma.

Mesmo à certa distância, sentimos seu cheiro, sua umidade e podemos ouvir seu som, tranquilo e potente. 

Olhando para ele durante dias de inquietude fico imaginando se sou páreo para tamanho desafio de navegar por tanto tempo sobre as águas salgadas e sem fim. O medo é do mesmo tamanho do desejo por fazê-lo e por isso creio que a desistência não soa como uma opção, mas o preparo e o conhecimento se tornam fundamentais. 

Mas estar perto do mar faz acender as emoções e revive os desejos que o dia a dia nos faz colocar num lugar onde não é prioridade. Por isso estar perto é tão importante, se é o que se pode fazer ao menos isso deve ser feito. 

A fé em continuar e o desejo têm que permanecer vivos, é o mínimo que se precisa para realizar os sonhos.

NO MEIO DA MADRUGADA

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Na última semana da vela eu estava hospedado no veleiro Petit Prince, no Iate Clube de Ilhabela.

Aportados à um resistente cais flutuante de concreto e ferro, amarrados com quatro cabos (duas espias e dois springs) pensavamos estar seguros, mas na madrugada de sábado para domingo entrou derrepente um vento sul no canal da ilha de cerca de 50 nós (94km/h) e arrebentou nossas amarras, tamanha sua força. Veleiros começaram a se bater devido ao vento e as ondas, acordamos com os barulhos que vinham de toda parte, quando eu me levantei, o Paulo ja estava no convés ligando o motor para empulsinar o barco contra o vento e ao redor parecia o fim do mundo. Barcos desgovernados passavam por fora do anel do cais, perdidos de suas âncoras e tantos outros tripulados se escondiam atrás de enormes petroleiros para não sofrer a ação do vento. Com o rádio ligado no canal de comunicação do Iate Clube Ilha Bela ouviamos diversos pedidos de ajuda e impotentes, respondiamos que nada poderiamos fazer para ajuda-los e os aconselhavamos que se escondessem atrás dos petroleiros. Após 30 minutos de tormenta vimos a enorme embarcação da Marinha, que participa dos festejos da regata, dirigir-se no sentido dos barcos que pediam socorro e isso nos deu um alívio. À nós, restava cuidar do nosso próprio problema, tinhamos que nos amarrar novamente ao cais e ao nosso redor haviam algumas dezenas de veleiros. Com motor a frente e sem sair do lugar, depois de 40 minutos de luta, conseguimos nos amarrar com quatro espias na proa, ou seja, quatro cabos no mesmo sentido para frente, afim de manter o barco alinhado com o vento e as ondas, diminuindo assim o perfil do veleiro cotra suas forças. Ao nosso lado uma lancha não teve tanta sorte, golpeada com onda atrás de onda, acabou por afundar. Tentamos socorrer a lancha, mas devido ao nosso apuro, quando nos demos conta a embarcação ja tinha afundado sem tripulação, isso se deu em questão de minutos e foi uma terrivel surpresa. Em um instante ela estava ali agonizando e no outro ela tinha desaparecido, nem a vimos afundar mas viamos suas amarras ainda no cais.

Depois disso nos restava dormir, mas quem iria conseguir dormir depois daquela dose de adrenalina tremenda e o medo de uma nova surpresa? No final das contas acabei ficando sozinho no barco, o Paulo tinha pulado na água para alcançar o cais e la ele fez as amarras enquanto eu  fazia o mesmo no veleiro e depois de feito, ele achou mais seguro dormir no salão do Iate Clube, o que me fez um tripulante mais assustado afinal, sozinho era melhor que nada mais desse errado e também por isso não consegui mais dormir, apenas fiquei deitado com o rádio ligado por mais um tempo ouvindo os pedidos de ajuda e os relatos de ventos nos medidores dos barcos em mar “Estou registrando 48 nós de vento e nas rajadas chegam a quase 60″ afirmou um velejador em mar.

Cais de concreto um dia antes da tempestade fotografado por Paulo Vinicius Arruda Passos

No dia seguinte, com muito sol e muito vento seguimos para o Bracuhy em Angra dos Reis, fizemos o trajeto em 11 horas com vento de popa de 20 a 25 nós, três velas abertas e muitas ondas que pareciam paredes de água atrás de nós,  ja que estavamos no mesmo sentidos delas, foi o dia de vela mais trabalhoso que ja tive, mas foi um velejo para guardar na memória.

Um corpo em movimento

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Foto de travessia Ilhabela-Bracuhy no veleiro Petit Prince

Estávamos eu, três primos e meu tio a bordo do veleiro Domani, navegando rumo à Parati próximo à costa cerca de duas milhas náuticas (quatro quilômetros) e com tempo fechado.
Todos estavam no cockpit, de onde se controla o barco de todas as maneiras, leme, velas e motor, até que começou a chover e para minha sorte, era minha vez no leme e todos desceram para a cabine. Sempre fazíamos turnos no comando do barco, principalmente durante a noite, quando nos revezávamos a cada quatro horas em duplas, para evitar que uma pessoa sozinha ficasse com sono, então havia muita conversa para que não dormíssemos e o barco ficasse sem governo. Mas naquele momento ninguém estava dormindo, era perto de meio dia e eu estava no leme só, assistindo pela entrada da cabine à minha frente o povo todo se deliciando de miojos. A princípio fiquei furioso com as provocações e brincadeiras, mas me concentrei no que estava fazendo, pois quando chove a visibilidade se reduz muito, as vezes a poucos metros a frente. Nesse momento em que me entreguei ao comando do barco e a situação, comecei a sentir que estava me conectando e me veio uma tranquilidade incrível, a chuva parou de incomodar, a fome que nem era tanta foi esquecida e eu comecei a admirar aquele momento que era só meu, como se eu estivesse sozinho comandando aquele enorme veleiro por dentro da chuva sem ver terra a vista, tendo como direção um número a ser lido na bússola a minha frente. A posição em que eu me encontrava favoreceu esse sentimento também, como este veleiro tinha roda de leme, era possível e mais prático conduzi-lo em pé, me dando a sensação de ser um passageiro com as mãos apoiadas no timão, apreciando as particularidades do mar recebendo a chuva como em um camarote especial.
As vezes é difícil entrar em contato com o que está ao nosso redor, muitas coisas nos chamam a atenção e raramente são as coisas importantes, essas geralmente passam sem percebermos. A vida deveria ser um caminho repleto de sentimentos e nós os banalizamos e esquecemos, mas no fim das contas, é isso que importa de verdade.
Se não nos importarmos de sentir o que nos rodeia, seremos capazes de interagir de alguma forma, assim como naquela situação, em cada lugar que vamos existe esta possibilidade e é disso que se forma um corpo vivo, que está em constante transformação e sempre transformando onde passa.